Sexta-feira, 07 de Janeiro de 2005
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ser em breve o segredo do pólen
na tua língua – a novidade do rio
o sabor imenso – ser a tua lágrima
a serenata de espuma combustível
no teu ventre relâmpago virgem
ser-te o espaço e o espaço seres tu
e a fantasia de sermos um só violino
na mão de um anjo sermos os lírios
e a voz do vento na seara dos dias
os carrascos implacáveis da insónia
da sombra e dos cavalos vermelhos
destilar tinta branca e beber os espinhos
com dedos de sol esticados a desenhar
longos os momentos longos do mar
na pele – os lábios – e para sempre nós
e nenhum tempo para sermos breves
publicado por lfdsa às 19:41
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Quarta-feira, 05 de Janeiro de 2005

1. Estou, aos poucos, a mudar-me para aqui.

2. Um novo blog que vai de certeza valer a pena ler (com atenção): da literatura. Para já tem como autores o João Paulo Sousa, o Jorge Melícias, o Pedro Sena-Lino e o valter hugo mãe. O elenco é uma garantia.

publicado por lfdsa às 12:02
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Terça-feira, 04 de Janeiro de 2005
eu não disse? no público.Serviço ADSL pré-pago da Telepac está fora da leiTelepac promete emitir facturas por Multibanco a partir de FevereiroDestaco o último parágrafo da segunda notícia:«Contactado pelo PÚBLICO, fonte oficial da Portugal Telecom afirmou "estar a passar facturas a quem as solicita". Contudo, desde finais de Outubro do ano passado que o PÚBLICO vem tentando sem sucesso, obter as facturas relativas aos carregamentos efectuados por um cliente do Sapo ADSL pré-pago.»pois é, some things never change.
publicado por lfdsa às 23:12
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Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2004
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sinto, pelo terminar do canto, um fascínio ébrio e matemático. divertem-me a esperança e os projectos esquecidos dois dias depois. divertem-me muito as cidades. assim vestidas, de céu e panos brancos. sabes, a recompensa das cidades é o asfalto azul que as percorre na lentidão do último dia, isso diverte-me, mas escuta: que a vastidão do novo pássaro lhes sorria sempre, que seja essa e só essa a sua recompensa, a minha será ver a morte de alguns bichos enquanto aprendo a idade dos anjos nos teus lábios.

publicado por lfdsa às 15:11
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2004
publicado por lfdsa às 13:25
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vida toupeira, desperdício genético,
na cegueira colectiva faço apenas o que me obrigam.

tão pouco é o ar que respiramos.

catacumbas, espirais, túneis em chamas
que não chegam nem levam a parte alguma do céu

tão pouco é o ar que respiramos.

estou no lado errado da lua.
numa sala, fechada pela orgulhosa ignorância
de um gorila que navega à deriva,
protegendo-se das tempestades de merda,
que ele próprio inventa,
com a máscara do conforto.

tão pouco é o ar que respiramos.

pouco interessa.

tão pouco é o ar que respiramos.

nada que me interesse.

estou rodeado de orgulhosos poços de saber,
profundos abismos oceânicos povoados de conhecimento,
formas de vida desprovidas de vazio,
tudo as preenche na totalidade e,
imagine-se,
basta-lhes uma moeda
para responderem a todas as necessidades.

até eu, cápsula de cianeto, posso mergulhar
e afogar-me nesse mar de erudição,
sem perigar
qualquer outra espécie
viva ou já morta.

no último sopro da toupeira
faço apenas o que me obrigam.

escasso é o ar nestes túneis.
publicado por lfdsa às 11:28
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Sábado, 18 de Dezembro de 2004

há momentos em que me odeio. por não conseguir evitar odiar-te, odeio-me. eu sei, não foste tu que te perdeste, foi a tua consciência de ti, mas há momentos em que é como trazer flanelas vestidas no verão e teres sido tu a vestir-mas. é como ser a única folha dourada na primavera por não te poder beber. odeio-te por saber que te amo sem te saber. por vezes odeio a inevitabilidade do amor. sabes, dói muito não te saber, mas dói ainda mais não saber se me sabes, dói ainda mais não saber se alguma vez me encontras na tua busca de ti próprio.

*

um dia saberás que te procuro todas as noites. o labirinto é enorme e muito escuro, é feito de escadas em caracol e rampas de memórias. percorro-o quase como fazias para te encontrares. lembro-me, costumavas procurar-te nas serras, que subias e descias infinitamente, e no pêlo de animais abandonados. juro-te, procuro-te muito todas as noites. há muitas portas, todas fechadas. uma noite arrisquei uma delas, era de água e pareceu-me fácil. consegui atravessar o medo e mergulhar na água gelada, mas, do outro lado, apenas um pássaro a voar muito alto e a espiral descendente dos teus olhos. por vezes a tua cara. procuro-te como te procuravas na alucinação das imagens e nas florestas de tempo. já te perdi há muito tempo. não sei se ainda procuras as tuas mãos no abandono das sombras. não sei se chegaste a descobrir-te, eu ainda não te encontrei, mas, um dia saberás, procuro-te muito todas as noites. no teu fantasma. nas tuas mãos de árvore antiga.

publicado por lfdsa às 23:31
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também no DN. transcrevo parte:

Atenta à riqueza do léxico e a uma beleza não só da forma, mas da essência, a poesia de Natércia abre-se a uma musicalidade em consonância com um salto do psicológico para o metafísico, salto plenamente amadurecido e enredado numa existência supra-sensível e delicada de tipo místico «Mas às vezes há um desejo de solidão, de uma solidão breve. De morte. Falamos, os que se encontram, uma língua de tempos derradeiros.» (Entrevista ao DNa)

publicado por lfdsa às 18:56
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saturno.jpg

publicado por lfdsa às 17:54
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via valter hugo mãe. também o meu respeito e homenagem.</p>Esse nome - Natércia FreireEsse nome, Poesia! Esse nome, esse nome...Esse rito, esse mito, o chacal das angústiasEssa arma de fogo que repele e que explode,Que o peito te alimenta e te come e te come!O deserto a florir. O oceano a sangrar.Tanta ave a subir das ruínas ardentes.As pedras removidas. Os Templos abalados.Os segredos dos deuses no fumo desvelados.As promessas abertas. Os sacrários abertos.Decifrados nos mortos insolúveis sinais.Os retratos da água, quebrados. Mais os selos,De todos os mistérios. Nos ventos abissaisA puríssima voz dos homens imortais.E esse nome, Poesia? . .. Esse amante, onde o escondes?Esse mágico arauto. O sangue do teu corpo.O labirinto. O guia, da cega caminhada,O terror, o terror, dos homossexuais,Que gera e lhes destrói os dias geniais.E esse nome, Poesia?!... Nas montanhas, nos cais,As multidões de artistas, velhos adolescentes,Fitam o arco de oiro. As fluidas espirais,Do chicote que rasga coerências incoerentes.Doidas andam nos céus as máquinas e os olhosPensamentos sem crânios.Azuis fosforescências de azuis mediterrâneos.Um atroz sofrimento aos homens prometido.Diz seu nome, Poesia! Outeiros e balidosDe cordeiros dormidos lhe auguram a chegada.Diz-lhe que venha, sem o fel do fim: - Vem, Irmão, como a água.Não provoques a chaga,Nem estrela, nem cometa.Vem consumado, enfim,Como um dia virásPara o último Poeta.
publicado por lfdsa às 02:28
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